Unidade 4. Conceitos Básicos de Virologia e Imunologia

Figura 6 - Classificação viral com base na morfologia e replicação
traduzido e adaptado de Banerjee (2021).

Os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios, com dimensões entre 20 e 300 nm. Eles não têm as enzimas necessárias para a síntese de proteínas e ácidos nucleicos, que podem ser DNA ou RNA. Assim, os vírus são dependentes da maquinaria sintética das células hospedeiras para sua replicação. Aplica-se o termo vírus para identificação de todos os agentes com essas características biológicas, reservando-se o termo vírion para as partículas infectantes (COURA, 2013).

São exemplos de virus de DNA e RNA:

Vírus de DNA Vírus de RNA
vírus de verrugas, varicela-zóster, herpes, varíola e parvovírus. SARS-CoV-2, HIV, hepatites B e C, poliomielite, dengue, febre amarela, vírus da raiva, caxumba, sarampo, influenza, ebola, rotavírus.

As partículas virais, ou vírion, consistem essencialmente de um ácido nucleico (DNA ou RNA) envolto por um revestimento externo de proteína ou capsídeo. O capsídeo com o ácido nucleico incluído é chamado de nucleocapsídeo. Os vírions podem ser envelopados ou não envelopados. O envelope de vírus é derivado da membrana da célula hospedeira. Isso ocorre quando o vírus é liberado da célula hospedeira por brotamento. As subunidades de proteínas podem estar presentes como pontas projetadas na superfície do envelope; um exemplo é a proteína spike (S1) do vírus SARS-CoV-2. Coletivamente, essas subunidades são chamadas de peplômeros (VERONESI; FOCACCIA, 2021).

As estruturas superficiais das partículas virais são fundamentais nos processos de adsorção inicial às células que venham a infectar. Esse processo é complexo e, basicamente, envolve um receptor nas células hospedeiras ao qual o vírion deve se fixar antes de penetrar na célula-alvo. O vírus envelopado do HIV, por exemplo, utiliza sua proteína gp120 e o receptor CD4 presente em linfócitos T e macrófagos. Do mesmo modo, o vírus SARS-CoV-2 utiliza a proteína S1 para se ligar ao receptor ECA-2 expresso principalmente nos pneumócitos. Além disso, os peplômeros são importantes alvos do sistema imune, permitindo, por exemplo, a neutralização do vírus pela ligação dessas proteínas com os anticorpos (JIN et al., 2020).

O processo de replicação viral é variado e dezenas de estratégias são utilizadas. Os vírus de DNA são mais estáveis, portanto ocorrem menos erros nos processos de replicação: um erro a cada bilhão de nucleotídeos formados. Por outro lado, os vírus de RNA apresentam um erro a cada 1000 a 10.000 nucleotídeos formados. Assim, a geração de partículas diversas das amostras infectantes originais pode atingir níveis elevados, surgindo vírions com modificações importantes. Consequentemente, um vírus de RNA pode gerar um grande número de variantes de preocupação (Variants of Concern – VOC). A geração de variantes torna-se preocupante quando o vírus passa a apresentar maior transmissibilidade, maior gravidade, maior letalidade, mais resistência a antirretrovirais e/ou torna as vacinas menos eficazes. No contexto da COVID-19, a variante ômicron é altamente transmissível, potencial elevado de formar sublinhagens e maior facilidade de escape do sistema imunológico (FIOCRUZ Rondônia, 2023).

Após o vírus se ligar à célula hospedeira, entrar no citoplasma e os capsídeos serem removidos, inicia-se a fase de biossíntese. Nessa fase, o ácido nucleico viral e o capsídeo são sintetizados. Nesse momento, o metabolismo normal da célula hospedeira é desligado e se dirige para a produção de componentes virais. A biossíntese consiste essencialmente nas quatro etapas descritas a seguir (Figura 7) (VERONESI; FOCACCIA, 2021):

Figura 7 - Classificação viral com base na morfologia e replicação
elaboração do autor.

Em seguida, ocorre a fase de maturação, quando se dá a montagem de vírions filhos após a síntese de ácidos nucleicos e proteínas virais. Pode ocorrer no núcleo da célula hospedeira ou no citoplasma.

A fase de liberação das partículas virais pode ocorrer com a lise ou não da célula hospedeira. A formação de novas partículas infecciosas em ciclos replicativos rápidos leva à liberação de novos vírions, e as células são destruídas (exemplos: retrovírus e herpes-vírus). Em quadros de infecção persistente, pode-se gerar, ao longo do tempo, uma transformação maligna das células hospedeiras, com a formação de carcinomas, como é o caso das hepatites B e C (VERONESI; FOCACCIA, 2021).

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